"Queria uma caneta, mas me deram uma enxada", relata agricultora

05/09/2016 11:22:23 - Atualizada em 05/09/2016 11:25:01 - Por Camila Oliveira

Por Glenda Uchôa, Jornal O Dia

Os quiromancistas afirmam que podem prever a vida de alguém ao olhar as linhas presentes na palma da mão. Mostra-se presente, futuro, amor, saúde, carreira e tudo mais. Mas para entender parte da vida de Benedita do Nascimento, um aperto de mãos já é suficiente. Calos sobressaltantes e a aspereza da pele mostram que a senhora leva uma vida dedicada a trabalhos árduos, que exigem firmeza no tato. Habilidade essa que Benedita, aos 66 anos, nunca pode experimentar para praticar seu grande sonho: escrever. "Eu queria caneta, mas me deram uma enxada e foi assim escrevi minha vida, com trabalho", relata.

A agricultora faz parte de um grande espectro populacional no Piauí. Segundo os dados divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2014), o número de pessoas não alfabetizadas no Piauí está em 20,6%, o que corresponde a mais de 600 mil piauienses que não sabem ler e escrever no Estado. No Brasil, são 13,2 milhões de brasileiros analfabetos.

Mesmo lidando com esses números, o Governo Federal anunciou o interrompimento do programa que ensina jovens e adultos a ler e escrever. O Brasil Alfabetizado, executado por Estados e municípios com verba do Governo Federal desde 2003, teve os recursos bloqueados, pelo Ministério da Educação, para a abertura de novas turmas este ano.

Para Benedita, a vida segue 'difícil de entender', como confessa. Trabalhando na companhia do marido, José Lira, em uma horta no bairro Dirceu, na zona Sudeste de Teresina, a senhora explica que a falta de oportunidade de se dedicar à educação foi retirada ainda na infância. "A gente é do interior e tinha uma professora lá que era até nossa tia e que me matriculou na escola. Quando meu pai soube, ele não deixou. Disse que esse negócio de saber ler e escrever só servia para mandar carta para 'macho' e me tirou da escola", descreve.

Fotos: Elias Fontenele/ODIA

Depois disso, o trabalho no campo foi sua grande escola. No entanto, as mãos habilidosas, que executam os serviços de capina, plantação e colheita, mal sabem segurar uma caneta. Mas o marido, conhecido como Zé, ainda conseguiu ter acesso aos primeiros anos escolares. Da experiência, soube reconhecer as letras, escrever o nome e, com dificuldades, formar palavras.

"Era tudo muito difícil, mas eu ainda consegui concluir as séries do ensino mais básico. Casamos cedo e, quando a gente veio para Teresina, ela não tinha documentos, foi quando eu pude ensinar um pouco e a Benedita escreveu o nome para ter os papéis", lembra.

A falta de alfabetização reflete em diferentes aspectos na vida do casal. Benedita destaca que, sem ler, não pode sequer operacionalizar seu dinheiro sozinha, ir ao banco ou viajar. "Não pode viajar sozinha, porque chego em uma cidade que eu não conheço as coisas, como eu vou aprender tudo?", questiona.

Hoje, são nos filhos que o casal aposta na mudança dessa história. "A gente vive empurrando eles pra estudar, pra ter conhecimento, que a gente não pode, mas eles sim", enfatiza a agricultora. É o mesmo que quis fazer Maria das Neves, agricultora que também não frequentou a escola por falta de oportunidade. "Não me botaram na escola. Com 15 anos, minha mãe disse que eu tinha que casar e aí a vida foi trabalhar e cuidar dos filhos. Hoje eu digo pra eles para estudar, mas é sempre difícil", comenta.

Por conta das dificuldades, as taxas de analfabetismo no país continuam persistentes apesar de terem diminuído desde a implementação do Programa Brasil Alfabetizado. A meta era que a taxa de analfabetismo chegasse a 6,7% em 2015, através do compromisso assumido em conferência mundial, mas no atual ritmo, a expectativa é que a meta seja cumprida apenas em 2022.

Déficit do Brasil Alfabetizado é de quase 30 mil piauienses

Quando o Programa Brasil Alfabetizado entrou em vigor há 13 anos, o Piauí ostentava os números nada satisfatórios de 30,5% de sua população à margem do acesso à alfabetização. Já em 2009, foi constatada uma queda brusca, mas momentânea. O Estado chegou a contabilizar 19% de analfabetos, número que subiu para 20,2% em 2014, com os dados divulgados pelo Pnad. Atualmente, o Programa atende 20 mil pessoas - número que não pode ser ampliado após o bloqueio de verbas ministeriais.

A diretora da Unidade de Educação de Jovens e Adultos da Seduc (Ueja), Conceição Andrade, explica como o corte realizado pela Governo Federal afetou a amplitude do programa e qual o trabalho de enfrentamento feito no Estado para lidar com o alto índice analfabetismo da população. "Eles (Governo) disponibilizaram 200 mil vagas para o Brasil todo. Nós inserimos como termo de adesão mais de 48 mil pessoas analfabetas para voltarem a estudar, conseguimos inserir no sistema 20 mil pessoas. Quando estávamos em 26 mil, o recurso foi bloqueado e, por isso, conseguimos ativar só os 20 mil. Esses 20 mil são pelo programa e o restante, o déficit de quase 30 mil pessoas, fomos buscar na rede, que é a escola normal, pública, ensino regular, e não pelo programa", descreve.

"Nossa meta é que, durante dez anos, saiamos do analfabetismo, mas o Estado sozinho não tem condição de arcar com tudo, tem que ter parceria com os municípios. Trazer 50 mil pessoas como fizemos nessa edição, espalhadas em 203 municípios, foi uma conquista. Têm muitos locais que não conseguimos por conta dos espaços, porque, indo na casa do aluno, o MEC não reconhece, mas a alfabetização é ação prioritária dessa gestão", completa Conceição Andrade.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 20,2% de analfabetos absolutos no Estado, que nem ao menos iniciaram os estudos, e cerca de 35% funcionais, que iniciaram, mas não terminaram. "Temos a função mais espinhosa e a sociedade precisa saber e acordar, estamos com quase 100 mil matriculas no EJA (Ensino de Jovens e Adultos) e, desse número, metade é de alfabetização. Sem o programa, não teríamos conseguido, porque só com ele conseguimos mobilizar mais atores da sociedade, igrejas, ONGs e tudo mais. Por isso, foi um choque e uma surpresa muito grande esse corte, mas estamos buscando outras formas de manter esses alunos para que eles não abandonem o estudo", destaca a diretora.

Desafios

Um dos grandes problemas enfrentados para reverter o quadro de analfabetismo no Estado é reverter as chances do abandono e a evasão escolar. A maior parte do contingente de pessoas ainda vítima da falta de alfabetização está na faixa etária acima de 50 anos. Pais e mães de famílias, trabalhadores que não tiveram a chance de estudar na infância e juventude e levam uma vida às cegas no campo das letras.

"A maioria deles tem idade avançada, a maioria são pais de família. Eles abandonam o Programa, mas, no ano seguinte, estão querendo estudar de novo. A Secretaria está estudando para ter flexibilidade, porque tem que saber o que aconteceu com o aluno, se for tratar a demanda de EJA igual ao ensino regular, não vamos ter aluno, todos são pais de família, mães de família, têm empregos e uma vida difícil. Ou olhamos com olhar diferenciado ou esse pessoal não vai concluir os estudos; então, não vamos diminuir os índices de desemprego, porque vai continuar com falta de mão de obra qualificada e o ciclo não se quebra", define.

Novo programa permite alfabetização em 90 dias

A alfabetização é a porta de entrada para um país menos desigual. Segundo a diretora Conceição Andrade, agora a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) se debruça para a experiência de uma metodologia especializada em educar a curto prazo, promovida pelo Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação (Geempa/RS), dirigido pela professora Esther Pillar Grossi.

A proposta que o Geempa apresenta encontra-se dentro da metodologia do Ministério da Educação (MEC) e a expectativa é que a proposta da professora Grossi inicie em 2017. O intuito do novo programa é trabalhar com o sistema de educação regular amparado a um sistema complementar, voltado para as pessoas que não completaram o ensino médio ou nem mesmo o ensino fundamental, ou para aquelas que estejam em situação de analfabetismo funcional.

“A Esther Grossi implementou uma metodologia dela, que tem 46 anos de estrada, em Guaribas e Acauã, onde a pessoa se alfabetizava em 90 dias ou cinco meses no máximo. Lá, ela trabalhou com 800 pessoas e alfabetizou cerca de 700 em 90 dias. Com a confirmação dessa eficácia, o governador quer trazer de volta ao Piauí”, relembra.

O município de Alagoinhas do Piauí servirá como referência de testagem do modelo. A região carrega o título da cidade com o maior índice de analfabetismo do país, com cerca de 44% da sua população sem saber ler e escrever.

Para Conceição, mesmo com as boas perspectivas no cenário estadual, o Governo Federal terá que reavaliar a decisão. “A Unesco já chamou atenção pela medida, eles têm um termo de compromisso de conduta e não podem fugir, tem que ser diminuído esse índice. Nós temos 1,8 milhão de pessoas fora das salas de aula, o país não produz mais analfabetos, mas não está conseguindo tratar adequadamente”, finaliza.

Contraponto

O Ministério da Educação (MEC) esclarece que o Programa Brasil Alfabetizado, desenvolvido para alfabetização de jovens, adultos e idosos, está sendo executado pelo Governo Federal com atendimento pleno de 167 mil pessoas no ciclo de 2016.

De acordo com o MEC, o programa conta com 17.445 turmas ativadas e 17.088 alfabetizadores, sendo 2.902 coordenadores e 105 tradutores/intérpretes de língua brasileira de sinais (libras).

Após 44 anos de casamento, casal aprende a escrever juntos

Maria Gorete e Francisco Ferreira não tiveram oportunidade de escrever o nome no registro de casamento, quando decidiram selar a união, porque ambos não foram alfabetizados; ela com 15 anos e ele com 19. Hoje, 44 anos depois, o casal, literalmente, começa a escrever uma nova história. Participando do Programa de Alfabetização, Gorete e Francisco ensaiam a formação das primeiras palavras e frases como fizeram com tudo durante a vida: juntos.

“Perdi meu pai com cinco anos de idade, minha mãe tinha seis filhos e, para conseguir dar conta, todos tivemos que trabalhar. Comecei a trabalhar com oito anos, plantando cana do brejo e nunca tive a oportunidade de frequentar uma escola”, conta Gorete.

A história de Francisco é similar. “Escola não existia para a gente que morava no interior. Meu caminho sempre foi a roça, aprendi a capinar, brocar, apanhar arroz, feijão e depois aprendi uma profissão. Essa foi minha vida até agora, escola eu não tive”, relembra.

O casal faz parte da turma de 25 alunos que assiste aula diariamente no Colégio Freitas Neto, na zona Norte de Teresina. As aulas são noturnas, voltadas àqueles que, fora da idade, não tiveram oportunidade de integrar o ensino regular.

A cada nova letra aprendida, sílabas formadas e palavras que ganham sentido na visão de quem passou a vida enxergando apenas símbolos sem sentido nas letras, novos sonhos vão sendo construídos.

“Meu sonho é saber ler, escrever e montar um negócio para virar empresária. Já sei fazer minhas continhas”, aponta Gorete para as folhas do caderno em um sorriso orgulhoso.

A satisfação de ver as linhas do caderno serem preenchidas também tem Antônia Elza, de 40 anos. Após mais de 30 anos afastada das salas de aula, retomar a tentativa de aprender é, para ela, uma chance ímpar. “Não me deixaram estudar quando eu era mais nova, mas agora sei que posso aprender. Tenho orgulho de conseguir escrever meu nome”, define.

A meta do Programa é justamente essa: promover a superação do analfabetismo e contribuir para a continuidade dos alfabetizados nos estudos. “Apesar das dificuldades, eles não faltam, gostam muito de aprender e eu tenho prazer em ensinar”, destaca a alfabetizadora, professora Lucileide.

Por conta da iniciativa, a celebração dos 45 anos de casamento de Gorete e Francisco poderá ser feita com juras de amor trocada em bilhetes. Para eles, o amor, mais do que nunca, precisa ser registrado.

Projeto oportuniza educação inclusiva para pessoas fora da idade escolar

Todas as noites, Helena da Silva sobe as escadas que dão acesso à sala de aula do projeto de Ensino Noturno do Diocesano (Enod) com entusiasmo. Mesmo após passar o dia dedicando-se às tarefas domésticas, cuidando da família e afazeres diversos, nunca faltou disposição para a senhora na hora de estudar. O motivo é simples: após décadas sem ter a oportunidade de aprender nem mesmo a ler ou escrever, Helena agarrou a oportunidade ofertada através do Enod como um presente divino. “Subo essas escadas agradecendo a Deus por essa oportunidade”, confessa.

O projeto do Ensino Noturno começou em 1997 e já beneficiou, gratuitamente, mais de 3 mil jovens e adultos que não concluíram os estudos no período regular. A idade mínima exigida para cursar o Ensino Fundamental é de 16 anos e, para o Ensino Médio, 18 anos. Não há restrição quanto à idade máxima de ingresso.

“O Enod acontece no sentido de educar pessoas que estão fora da idade e fora do perfil socioeconômico que a escola exige. Para estudar no Enod, tem que estar fora da idade escolar e tem que ter uma renda per capita de, no máximo, um salário mínimo e meio. Os nossos alunos não pagam nada, é um projeto filantrópico que a Companhia de Jesus desenvolve. Hoje, estamos com 266 jovens matriculados do 5º ano do ensino fundamental a 3ª série do ensino médio. O trabalho é voltado no sentido da valorização deles mesmos”, explica o coordenador do Enod, professor João Patrício de Carvalho.

O coordenador, que acompanha o projeto há 13 anos, vê os avanços alcançados na área da educação em Teresina. Anteriormente, a procura que era fundamentalmente para as séries inicias; hoje, já é muito maior para a conclusão do ensino fundamental e início do ensino médio.

“No início, a procura foi maior nas séries iniciais, mas o processo vem melhorando. Nós temos a procura muito maior pelo ensino médio que pela educação inicial básica. A verdade é que muitos dos nossos alunos não tiveram oportunidade e eles sentem diferença quando chegam aqui, porque têm que obedecer às normas quanto aos aspectos comportamentais e acadêmicos. São tratados com dignidade e humanismo”, afirma o coordenador.

“Frequentar as aulas é um recomeço de vida”, afirma aluna

Para Helena Silva, frequentar as aulas é um recomeço de vida. “Meu pai me botou pra estudar com sete anos, mas com oito anos, ele me tirou porque disse que tinha que cuidar dos meus irmãos. Depois, casei com 14 anos e o marido não me deixou estudar também. Quando ele ficou inválido, meu filho disse para eu voltar a estudar. Agora, aqui é minha segunda casa. Na hora que vou subindo as escadas, é um sonho, Deus está me dando força. Meu maior sonho era pegar minha bíblia e ler todo o evangelho; hoje, eu consigo fazer isso”, descreve emocionada.

Joana da Costa, Conceição Alves, Antônio de Lima e Francisco Rodrigues também fazem coro ao depoimento de Helena. Cada um deles teve que superar as adversidades que a vida apresentou para recobrar a felicidade de aprender.

“Cheguei aqui na 4º série e fui muito acolhida. E uma das pessoas me fez prometer que eu só sairia quando terminasse. Estou cumprindo com muito orgulho. Faço tudo para dar um bom exemplo para meus filhos, porque a maioria deles são jovens, mas nenhum terminou os estudos. Eu já disse que não vou só terminar, mas vou ingressar também na faculdade. Eu estou querendo fazer Administração”, afirma Conceição Alves, que cursa o 3º ano do ensino médio.

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