Professor do Diocesano realiza palestra no Salipi

24/11/2015 12:32:21 - Por Samira Ramos

A palestra “Literatura – Leitura, escrita, ensaio” acontece dia 16.06 (sábado) às 8 horas, no Teatro 4 de Setembro, dentro do Circo de Palestras Língua Viva, no 10º Salão do Livro do Piauí – SALIPI.

Adriano Lobão Aragão é formado em Letras, mestrando em Língua Portuguesa pela Uespi, fundador da revista amálgama, publicação dedicada à Literarura e premiado autor dos livros Uns Poemas, Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra, Yone de Safo, As cinzas as palavras e Ave eva. Atualmente, edita o site dEsEnrEdoS, o blog Ágora da Taba e leciona Língua Portuguesa no Colégio Diocesano.

Diocesano - Você fará uma palestra no Salipi que tem como tema O Fim do Mundo é Não Ler. Como aconteceu para você o interesse pela leitura?

Prof. Adriano – Creio que surgiu com o convívio com determinados livros. As minhas companhias mais constantes na infância foram os livros que pertenciam, eu acho, à minha avó e que traziam vários poemas, alguns dos quais minha mãe declamava. Isso me dava alguma curiosidade e como não tenho irmãos, então minhas companhias eram esses livros. Aos poucos acabei me envolvendo e formando um gosto mais apurado ao longo dos anos.

Diocesano – Sua mãe recitava os poemas. O seu encantamento foi mais pelas palavras ou pela melodia dos poemas?

Prof. Adriano - Pela melodia, pelo ritmo. O que me interessava era, sobretudo, o ritmo. Ela tinha preferência por poemas românticos, Gonçalves Dias, e simbolismo.

Diocesano – Você citou certa vez, seu interesse por revistas em quadrinhos e sua preferência pelo Horácio, personagem de Maurício de Sousa. O que ficou dele em você?

Prof. Adriano – A postura reflexiva.  Ele é uma personagem ensimesmada e eu achava interessante porque era personagem de uma revista infantil, para um público infantil e eu achava ele extremamente deslocado do meio no qual ele era publicado. Aquela possibilidade de existir esse personagem tão reflexivo num mundo tão dinâmico quanto aquele chamava muito a minha atenção.

Diocesano – O que veio primeiro, a Literatura ou o Cinema?

Prof. Adriano – Para querer mesmo me aprofundar, foi o cinema. A poesia ficou um pouco de lado quando na adolescência virei um cinéfilo voraz, o cinema teve um impacto muito grande.

Diocesano – Lendo seus comentários sobre Literatura, Cinema, Fotografia, percebemos que você trabalha muito com símbolo, com semiótica. Desde quando tudo interessa tanto?

Prof. Adriano - Pois é. Eu diria que a maioria das artes me interessa bastante, não sei precisar desde quando, não me vem uma data, uma época. Mas eu tento ver a poesia no cinema, a literatura na fotografia, a música da poesia. Eu gosto muito de usar essas intersecções, sobretudo a estética.

Diocesano – Na sua opinião, o que acaba determinando o estilo de um escritor?

Prof. Adriano – Isso é muito inconsciente. Vai se formando esse estilo, não se tem um controle muito grande sobre isso. Mas, se podemos procurar alguma coisa, eu diria que as leituras, a formação que a pessoa teve. Aquilo que se escreve é uma resposta àquilo que se leu, aquilo que se produz corresponde àquilo que se consumiu. Então eu creio que se eu puder mencionar algo, o meu estilo ao escrever poesia deva ser uma resposta aos poetas que eu li e que me impressionaram bastante.

Diocesano – Quais foram?

Prof. Adriano - H. Dobal foi um poeta ímpar num determinado momento de verdadeira epifania. Manuel Bandeira, T. S. Elliot, Homero, esses são os que mais me impressionaram e são motivo de releituras constantes.

Diocesano – Você consegue entender T. S. Elliot?

Prof. Adriano – Interessante a pergunta, porque T. S. Elliot a cada leitura eu achava que tinha entendido. Quando você abre de novo, vê que aquela Terra Desolada não era bem aquela da leitura anterior. Então, eu digo assim, não. E isso é que é interessante nele, na verdade ele é um autor que pressupõe que cada leitura é diferente da leitura anterior. E também tem o T. S. Elliot teórico, as suas teorias a respeito da poesia também se mostram muito interessantes.

Diocesano – Quando foi que começou, segundo suas palavras, o seu irremediável vício pela poesia?

Prof. Adriano – Primeiro era o gosto, depois o vício. Quando comecei a escrever meus primeiros poemas, que coincide com as primeiras leituras de H. Dobal e corresponde ao  primeiro contato com T.S. Elliot, sobretudo com algumas traduções. Hoje eu imagino até que traduzir poemas é mais importante do que escrevê-los. Também quando refiz uma leitura do Manuel Bandeira. Eu lembro que a primeira vez que recebi meu salário como professor, imediatamente eu comprei a obra completa de Manuel Bandeira.

Diocesano – Qual a sua necessidade de escrever?

Prof. Adriano – Não sei. Sinceramente, eu me pergunto isso constantemente. Por quê? Eu poderia direcionar isso para o aprimoramento da carreira profissional, para o convívio familiar, para qualquer outra coisa, é algo inconsciente.

Diocesano – Nos seus poemas no livro Ave Eva você consegue ser muito preciso com as palavras. Poemas sucintos e que dizem muito. Essa precisão é um trabalho minucioso da escolha dessas palavras ou elas aparecem do nada?

Prof. Adriano – É minucioso, é um garimpo. Muitos deles são talvez a décima versão do primeiro poema, do que seria um esboço, é escrito e reescrito experimentando diversas variações para daí chegar ao que talvez seja o produto terminado. E muitas vezes não é. Algumas vezes, ao reler um poema vejo que determinada cadência rítmica, determinada imagem não fosse a mais adequada e por isso vejo meus livros e nenhum deles eu olho e digo tá terminado. Sempre vejo como um processo que num determinado momento precisei publicar, então foi publicado. Mas poderia ter continuado esse processo de reelaboração. Os primeiros livros eu vejo mais ainda como um esboço do que eles poderiam ter sido.

Diocesano – Vendo o expediente da Revista Amálgama, percebi que é um verdadeiro Clube do Bolinha. Lá, mulher não entra?

Prof. Adriano – Entra sim. Eu diria que foi apenas uma infelicidade nossa de não termos nenhuma colaboradora naquele momento, infelizmente. Hoje existe uma predominância grande de poetas mulheres que eu leio e releio constantemente, inclusive aqui do Piauí. Há um movimento bem forte de resgatar a produção feminina, é algo muito válido. Entre as poetas que eu admiro bastante tem a redescoberta de Cecília Meireles, no sentido de que eu estou lendo mais profundamente a poesia dela. Gosto muito da Hilda Hilst e da poesia russa, de Anna Akhmátova. Com relação a Amálgama, infelizmente naquela época nós não encontramos muitas interlocutoras, mas se tivéssemos encontrado seriam sempre muito bem vindas.

Diocesano – Como estão os projetos de incentivo a leitura dentro do Diocesano?

Prof. Adriano – Nós trabalhamos dentro de sala de aula nesse aspecto de tentar aproximar autores clássicos dos alunos, tentando fugir daquela padronização de vestibular onde o foco maior são os alunos do terceiro ano. Mas, até chegar ao terceiro ano, trabalhamos muito essa questão de tentar apresentar o texto clássico, canônico, sob o ponto de vista dialético onde o aluno possa entender-se como herdeiro dessa tradição literária que é uma experiência humana. O trabalho que utilizo diretamente em sala de aula, também, é de tentar ampliar essa leitura não apenas a autores brasileiros, mas entender-se como herdeiro de uma tradição que envolve as diversas culturas existentes do mundo. Vamos trabalhar durante esse ano os textos gregos como Homero, com a Ilíada, Odisséia. Vamos trabalhar As Mil e Uma Noites, um texto de linhagem árabe, e tentar aprimorar o repertório linguístico a partir da leitura literária.

Diocesano – Existe uma forma de encantar esses alunos com a literatura?

Prof. Adriano – É sempre um desafio porque a leitura é muito particular. Em linhas gerais, uma das maneiras utilizadas é, apesar de trabalharmos em algumas séries iniciais com obras adaptadas, que ele deve ter o contato com a obra original. Usamos esses elementos para chegarmos a certo nível de leitura. Apresentar uma Ilíada "original" a um aluno, seja em que tradução for, não dá. Ele precisa ter um repertório cultural anterior para conseguir mergulhar realmente no sabor dessa poesia. Então é contextualizar. Volta-se sempre para o paradigma inaciano, é necessário que o aluno tenha uma experiência em torno daquilo. Muitas vezes pode ser até por um fragmento onde ele possa despertar algum tipo de sensação, algum tipo de elemento que possa capturar a atenção do aluno, uma reflexão em torno daquilo. Eu diria que o paradigma inaciano aplicado à formação de leitores é algo ímpar, porque tem que haver uma experiência com essa leitura, um momento em que leve a experimentar, seja em forma de dramatização ou de releitura da obra. Os alunos elaborando seus próprios parâmetros em relação à obra, leva-os a se familiarizarem com o texto e com o contexto.

Diocesano – Como é a resposta dos alunos?

Prof. Adriano - Eu diria que é boa. Poderia ser melhor, mas formar leitores é complicado. E trabalhamos com um determinado público onde, graças a Deus, temos bons leitores. O nosso desafio é transformar aqueles que não são em pelo menos leitores minimamente assíduos. Esse ano, por exemplo, fiquei bastante grato. Uma aluna me disse que pela primeira vez havia lido um livro inteiro. Então, pra mim, foi bem comovente conseguir de alguém que não tinha o hábito, passar a ter o hábito da leitura. É um passo muito importante, porque ela leu A Revolução dos Bichos de George Orwell. E mais do que isso, admirou a obra. Então pra mim foi algo fundamental. Citei um exemplo, mas os pais também mencionaram que foi uma leitura agradável, que seus filhos gostaram bastante e sentiram o interesse deles por aquele objeto, livro, que quando se abre deixa de ser um objeto e passa a ser um organismo vivo.

Diocesano – Vamos falar agora da sua participação no Salipi. Como será a dinâmica da sua palestra?

Prof. Adriano – A partir do pressuposto que nós respondemos a coisas que tivemos contato, eu selecionei fragmentos de determinados autores da minha predileção enquanto teóricos, enquanto pessoas que desenvolveram aquilo que eu gostaria de estar mencionando naquele momento. Então peguei diversos fragmentos. Por exemplo, dois trechos de Jorge Luis Borges, um sobre o livro, outro ligado à tradição literária e vou comentar, a partir daí, a visão que ele tem sobre leitura, escrita, sobre ensino, assim como de outros oito autores. A dinâmica da palestra vai ser essa que o ensino de Literatura e a escrita estão sempre em construção. A tônica da palestra vai ser essa, o diálogo com esses teóricos e como as teorias deles podem ser operadas dentro da sala de aula, o que eles têm a nos oferecer.

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