Aparecida, Mãe na Terra e no Céu

12/10/2020 00:00:00 - Atualizada em 10/10/2020 08:33:45 - Por Samira Ramos

O nome de Maria ecoa pelo mundo todo, expresso em milhares de títulos pelos quais a Mãe do Senhor é invocada. Imagens, ícones, afrescos, vitrais e gravuras buscam representar bem essas invocações marianas, cada qual com sua identidade iconográfica. A imaginária mariana é de uma diversidade impressionante. Nessa riqueza de representações, está retratada Maria, Mãe e Senhora da comunidade eclesial. Na Virgem de Nazaré, encontramos uma referência do seguimento de Jesus Cristo e um alento para nossas dores em momentos doridos, quando podemos contar com seu consolo e intercessão. Mãe educadora, Maria nos toma pelas mãos e ensina-nos a percorrer os caminhos do Filho amado, Senhor da vida. Na verdade, a Igreja busca imitar Maria, pois ambas têm a mesma vocação. O Vaticano II insiste que, em Maria, o povo de Deus se inspira para cumprir sua missão no mundo.

Embora datada de 1717, a devoção a Nossa Senhora da Conceição Aparecida nos ajuda a compreender e experimentar a riqueza que o Concílio nos apresenta sobre Maria, especialmente na Lumen Gentium, na qual encontramos todo um capítulo dedicado à Virgem Mãe de Deus e da Igreja. Honrada como excelsa Rainha do céu e da terra, desde sempre amada pelo Senhor e predestinada como Mãe Imaculada da nova Criação, Maria de Nazaré foi mulher, filha, esposa e mãe de família. Simples e humilde discípula de seu filho Jesus, Nossa Senhora não foi poupada dos sofrimentos humanos: experimentou as dores e os sofrimentos da sociedade de seu tempo. Não se trata de tirar Maria de nossos altares e andores, mas de entender que a Virgem gloriosa que ali contemplamos pisou o mesmo chão que o seu povo, viveu as mesmas alegrias e aflições e, por isso, demonstra apreço e sensibilidade pela humanidade sofredora, de quem, aos pés da cruz redentora, tornou-se Mãe solícita. Ora, Maria, tal qual o povo de Deus, esteve sujeita às vicissitudes da vida humana, só não vivendo o pecado e, por isso, não conhecendo a corrupção da morte.

Como Mãe da Igreja, Maria adquire um “rosto universal”, uma maternidade que se estende e abarca todos os povos, inclusive a nós, brasileiros. Em suas aparições ou manifestações, nos seus mais variados títulos e invocações, Ela confirma a Verdade revelada em Jesus Cristo: suas mãos maternas guiam, educam, regem e ajudam. Em momentos críticos da História, Maria, como Mãe, vem em socorro da humanidade sofredora e aponta-nos a libertação que foi conquistada por seu Filho Redentor.

Olhando para as diversas representações de Nossa Senhora – seja de episódios bíblicos de sua vida terrena, seja de aparições ou manifestações na vida da Igreja – suas mãos são muito significativas. A título de exemplo, na imagenzinha bendita da Senhora da Conceição, Aparecida das águas, invocada como Rainha e Padroeira do Brasil, as suas mãos estão unidas, sinal de uma postura orante. Nesse sentido, chama-nos a atenção o fato de as mãos serem a única parte da imagem original de Aparecida que não se partiu após o atentado que a fragmentou em 1978: Maria continuamente nos convida à oração e reza por nós! As mãos orantes também observamos nas imagens de Guadalupe, da Rosa Mística, da Virgem dos Pobres, de Lourdes, de Fátima...

Ainda quanto à oração, a Senhora, por suas mãos, oferece-nos alguns instrumentos importantes que ajudam no itinerário da espiritualidade: Nossa Senhora do Carmo nos dá o escapulário; Nossa Senhora do Rosário nos convida a recitação dos mistérios contemplados em cada terço que carrega. A Mãe do Senhor, na verdade, motiva-nos a buscarmos as coisas do Alto: veja-se a Senhora da Assunção, com seus braços elevados para os céus; Nossa Senhora da Escada, que carrega a escada que conduz para a eternidade; a Mãe das Candeias ou da Candelária portando uma vela, símbolo que remete à Luz da Vida.

As mãos de Maria ainda oferecem alívio e proteção: Nossa Senhora dos Remédios nos concede a cura e a saúde; Nossa Senhora das Graças (ou da Medalha Milagrosa) tem mãos dispensadoras de dádivas celestiais; a Senhora das Dores mostra-se solidária às nossas penúrias, com mãos banhadas em lágrimas; a Mãe das Mercês deseja nos abraçar, com seus braços abertos e mãos acolhedoras e firmes, que rompem as amarras que detêm os cativos; a Senhora da Defesa afugenta o mal; a Virgem Desatadora dos Nós tem mãos habilidosas que nos livram das enrascadas da vida temporal e espiritual.

Com efeito, quão generosas e disponíveis as mãos de Maria para o serviço! São mãos lindas, fortes e delicadas concomitantemente. Como se diz no linguajar popular, “mão na massa”, “mãos à obra”. Traduzindo para uma linguagem mais adequada: mãos na missão! Mãos que sinalizam a adesão de todo o ser de Maria à vontade do Pai desde sempre. São mãos que servem os sofredores, os pobres, os humildes, os aflitos: eis Maria na Visitação e nas Bodas de Caná! Mãos calejadas que trabalham e labutam: eis Maria na casa de Nazaré com seu Filho e seu Esposo. Mãos que jamais se comprimiram movidas pela aflição, pela desesperança, pelo aparente fracasso ou por aquilo que foge à lógica humana: eis Maria na Anunciação, aos pés da cruz e à espera da ressurreição do Filho após a primeira Sexta-feira Santa da História; mãos que motivam e incentivam: eis Maria, após Pentecostes, encorajando os apóstolos na Igreja nascente.

Enfim, celebrar a Festa de Nossa Senhora Aparecida é recordar-nos da bondade maternal de Maria que vem em nosso auxílio, que peregrina com o povo brasileiro porque também Ela já foi imigrante, sofreu a perda do Filho, sentiu a opressão de uma sociedade que julga e exclui, cuidou do seu lar e da sua família em tantos momentos de atribulação social, política e pessoal. Foi do agrado de Deus e de Maria que a imagem “aparecida” das águas fosse encontrada por três pescadores humildes e aflitos, num momento tristemente histórico de um Brasil escravocrata, assim, destronando os poderosos e elevando os humildes (cf. Lc 1,52). Não é mera coincidência ou acaso, são os desígnios divinos para o seu povo, atualizando, em nossa história, o episódio da “visitação” de Nossa Senhora.

Na imagem de Aparecida, entendemos que Maria, grávida, aponta-nos para o Filho que traz em seu ventre, razão de sua vida e de nossa alegria. É o maior presente que Ela, como Mãe, oferece-nos. No Paraíba do Sul, fazemos a “leitura” do Êxodo, em que o Senhor, a partir das águas, traz vida nova e libertação ao seu povo escolhido: por Maria, Jesus Cristo conclama o seu povo a quebrar os grilhões da morte e do pecado que se manifestam no descuido e na indiferença com os mais pobres, excluídos e perseguidos; com os enfermos; com os idosos; com a “infância desvalida”; com a natureza, nossa Casa Comum, que é poluída e devastada; com a economia e as políticas públicas gananciosas que visam ao lucro e acentuam as diferenças sociais e o desrespeito à dignidade humana.

A Liturgia da Palavra da Solenidade de 12 de outubro recorda-nos a Mulher vestida de sol, com a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas, em quem reconhecemos Maria, geradora do Filho de Deus, e a própria Igreja, grávida, repleta de Cristo. Diz o Apocalipse que a Mulher fugiu para o deserto (cf. Ap 12,6). Sendo Maria a imagem da Igreja, entendemos que a fuga para o deserto é símbolo de peregrinação, da Igreja que “caminha nas estradas do mundo rumo ao céu” (Oração Eucarística V). Maria, intercessora do seu povo, tal qual a rainha Ester (cf. Est 5,1b-2;7,2b-3), é Mãe caminheira e peregrina, que acompanha, passo a passo, as discípulas e os discípulos de Jesus.

Conforme o verso de uma composição do Padre Ronoaldo Pelaquin, CSsR, nas mãos de Maria encontramos certeira esperança nas atribulações: “Nos desesperos da caminhada, Nossa Senhora, me dê mão”. Assim, pelas mãos d'Ela somos conduzidos pelas estradas de Jesus nesta vida, tal como crianças tomadas pela mãe. E, igualmente, pelas mãos da mesma Senhora, um dia, seremos recebidos na Morada Eterna, num abraço caloroso de uma Mãe de verdade. De fato, o povo simples e devoto sabe reconhecer que, na pandemia, na guerra, na miséria, nos regimes de exploração, na enfermidade, a Mãe Aparecida “brilha como sinal de esperança segura e de consolação, aos olhos do povo de Deus peregrino” (LG, 68) e, assim, “ilumina a mina escura e funda” (Canção “Romaria”, de Renato Teixeira) na procissão da vida.


POR LEONARDO C. DE ALMEIDA

Fonte: Academia Marial 

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